Formar, participar, organizar, proteger –  estas têm sido algumas das palavras de ordem que orientam o trabalho de centenas de famílias na Terra Indígena (TI) Munduruku, localizada no município de Jacareacanga (PA). Numa região dominada pelo garimpo e que figura entre  as dez TIs mais desmatadas do Brasil, 18 comunidades do rio Kabitutu, afluente do rio Tapajós, têm desenvolvido o projeto “Gestão Territorial e Ambiental no Rio Kabitutu – Formação de Agentes Ambientais e Diagnóstico Participativo na Terra Indígena Munduruku”. Apoiada pelo Projeto Dabucury, realizado pela CESE e Coiab, com apoio financeiro do Fundo Amazônia a iniciativa busca investigar áreas degradadas e envolver a juventude na proteção do território e fortalecimento da cadeia produtiva local.

O projeto tem sido desenvolvido a partir da Associação Extrativista do Rio Kabitutu Wuyxaximã (ASERK), entidade que desde 2009 atua em defesa do fortalecimento educacional, cultural, institucional e de geração de renda das comunidades. Em novembro de 2005, a ASERK deu início à formação de Agentes Ambientais do território, que envolveu a participação de 33 indígenas. Entre os dias 2 e 5 de março deste ano, foi realizado o segundo módulo do curso, que contou com a presença de lideranças da comunidade, representantes do poder público e da FUNAI. Além disso, entre os dias 5 e 8 de março também foi desenvolvido o diagnóstico participativo da TI, envolvendo a participação de 18 pessoas. 

Reginaldo Poxo Munduruku, presidente da associação, destaca o papel que essas iniciativas têm cumprido junto à comunidade.

“São muito importantes para nós pelo aprendizado, que também fortalece a coletividade, né? Durante essa formação, os participantes aprenderam também sobre o uso das coordenadas geográficas, o uso de GPS, o uso de aplicativos de celulares para cartografia, a elaboração de mapas e essas ferramentas da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). O que a gente aprendeu é para vigiar o nosso território com o uso desses equipamentos, dessas ferramentas. Então esses momentos para a gente, durante esse curso, foram muito marcantes”, destaca.

Enfrentamento ao garimpo

De acordo com Reginaldo, os Agentes Ambientais têm realizado visitas nas aldeias e demarcado pontos importantes do território, como as roças e lugares sagrados. Além disso, os participantes construíram um etnomapeamento na região do rio Kabitutu, em especial nas áreas degradadas pelo garimpo — prática que vem trazendo diversos problemas socioambientais para a região. Degradação ambiental, poluição das águas, assoreamento de igarapés e aumento de doenças como a malária, por exemplo, são apenas alguns dos impactos sofridos pela TI nos últimos anos devido à ação dos garimpeiros. 

Diante desse cenário, a liderança salienta a importância do projeto para o fortalecimento do território.

“Essas atividades têm grande importância para o povo Munduruku, porque também vão fortalecer a nossa capacidade, a capacidade dos próprios indígenas, de cuidar e defender o que a gente tem, o nosso próprio território. Então foi para isso que os jovens, os agentes ambientais, foram receber essa capacitação, para que nós possamos atuar com segurança dentro do nosso território”, aponta.

Olhar para o futuro

O trabalho e gestão coletivas são parte do processo de construção do projeto. Por isso, após a realização dos trabalhos de campo, serão feitas também oficinas para apresentar, discutir e validar os resultados do etnomapeamento. “Precisamos de coletividade e participação das lideranças. E os Agentes Ambientais são fundamentais, porque participaram do processo”, explica Reginaldo.

Para a liderança Munduruku, o Dabucury tem estimulado as comunidades a projetar o futuro que querem para o seu próprio território. E que são esses sonhos que têm impulsionado os povos indígenas a semear, no presente, as sementes das mudanças que desejam construir. 

“Precisamos do apoio do Dabucury porque tem nos ajudado a fortalecer a nossa luta. Trouxe dentro do nosso território para que nós olhássemos pela frente, para que nós olhássemos no futuro. Então é para isso que os agentes são fortalecidos, são capacitados, para que eles cuidem do nosso território, dos nossos igarapés”, destaca o presidente.

Sobre o Dabucury

Frente às ameaças de desmatamento, degradação ambiental, causas por diversos  fatores de pressão nas terras indígenas, tais como: o agronegócio, mineradoras e demais empreendimentos de infraestrutura, nasce o Projeto “Dabucury- Compartilhando Experiências e Fortalecendo a Gestão Etnoambiental das  Terras Indígenas da Amazônia Brasileira”, uma iniciativa da CESE e da Coiab,  com apoio do Fundo Amazônia/ BNDES a fim de apoiar projetos de gestão territorial e ambiental indígena, no intuito de avançar na implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI)  e viabilizar o acesso das organizações indígenas aos recursos para realização dos seus projetos.