Cortadas pela BR-230 (Transamazônica), as Terras Indígenas (TIs) Tenharim Marmelos e Tenharim Gleba B, no município de Humaitá (AM), sofrem há decadas com invasões e desmatamento ilegal, que ameaçam o meio ambiente e as aldeias da região. Para fortalecer a comunidade e proteger a floresta do entorno, o povo Tenharim tem se organizado para implementar seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), o que tem sido feito a partir do projeto “Iapóa’va Nhanderebi’u Nhandé Ikwahavukara Nhandé Mbatera” (Produzindo Nosso Alimento e Ensinando Nossas Coisas). Com apoio do Dabucury, a iniciativa busca fomentar o resgate cultural do artesanato Tenharim, com protagonismo das mulheres, bem como fortalecer o desenvolvimento produtivo das famílias, contribuindo com a segurança econômica das aldeias.

O desenvolvimento do Plano e a implementação do projeto são formas dos povos indígenas deixarem de ocupar o polo de objeto de políticas públicas e passarem a ser reconhecidos enquanto sujeitos. É o que analisa Daiane Tenharim, coordenadora da Associação do Povo Indígena Tenharim Morõgitá (APITEM), entidade responsável pela iniciativa. 

“Quando a gente fala do PGTA, tá falando de um documento que carrega a nossa visão de casa e do mundo, o que a gente entende como bem-estar, como proteção, como futuro. Ele fortalece os saberes porque coloca nossas demandas no papel de forma legítima”, explica a liderança.

“Quando a gente vai buscar um recurso, quando a gente dialoga com o governo ou com parceiros, a gente não tá pedindo favor. Está apresentando o nosso planejamento, a nossa estratégia de gestão do território. Isso muda completamente a relação”, completa.

Alimento e identidade

Para a implementação do Plano, a comunidade tem desenvolvido diversas atividades ligadas ao desenvolvimento produtivo, proteção ambiental e valorização da cultura Tenharim. Dentre as ações, está a construção da Casa de Farinha Mecanizada na Aldeia Mafuí, cujas obras já foram concluídas e o maquinário, adquirido. 

“São oito equipamentos no total, com capacidade de processar até três toneladas de mandioca por dia. Isso é uma revolução na vida dos agricultores indígenas”, destaca Daiane.

Mais do que uma questão econômica, a coordenadora ressalta a relação profunda que a produção de farinha tem com o povo Tenharim. 

“A mandioca não é só um alimento pra gente. Ela é cultura, ela é memória, ela é identidade. Desde que a gente se conhece como povo Tenharim, a farinha faz parte da nossa vida — desde a escolha da área da roça, do plantio, do cuidado da roça, do trabalho coletivo no processo, até a farinha na mesa. Quando a gente constrói uma Casa de Farinha, não tá só modernizando uma etapa produtiva — tá valorizando um saber que foi passado de geração em geração”.

Além disso, a indígena destaca o protagonismo das mulheres na produção. ”As mulheres são centrais nesse processo. Sempre foram. Elas carregam esse conhecimento, elas ensinam, elas organizam. A gente está planejando as oficinas de boas práticas na produção de farinha exatamente com esse olhar — fortalecer as mulheres como detentoras desse saber, e garantir que os jovens aprendam esse processo de forma valorizada, não como algo ultrapassado, mas como expressão viva da nossa cultura”, explica.

Mulheres como guardiãs de saberes

No fim de maio deste ano, a Associação também celebrou uma importante conquista: a realização das Oficinas de Artesanato Tenharim. Desenvolvidas durante três dias intensos na Aldeia Marmelo, a formação foi conduzida por três mestras artesãs e capacitou trinta mulheres, além dos membros da coordenação da APITEM. Daiane destaca que a atividade cumpriu um papel histórico para a comunidade.

“Foi a primeira vez na história que as mulheres Tenharim se reuniram sozinhas, entre elas, exclusivamente para passar e aprender conhecimentos sobre o artesanato do seu próprio povo. Um espaço delas, conduzido por elas, para fortalecer o que é delas”, ressalta a liderança, emocionada.

A dirigente relembra que o momento que mais a tocou foi o resgate da confecção do cocar Tradicional Tenharim, um item que não tem a finalidade comercial, e sim, de identidade e ancestralidade para seu povo. 

“Antes dessa oficina, só três mulheres em todo o território sabiam fazer. Três. Então imagina o que significa ter trinta mulheres aprendendo essa técnica — é um saber que estava quase se perdendo e que agora vai continuar vivo, vai ser passado pra frente, de mão em mão, de geração em geração”, salienta.

Ocupar o centro da sua própria história

O projeto prevê ainda a realização de uma série de atividades, como um Intercâmbio Intercultural com a Terra Indígena Caititu, para trocar experiências sobre produção de farinha e sementes tradicionais de mandioca; realização de oficinas de Boas Práticas na Produção de Farinha, em parceria com a Secretaria de Estado de Produção Rural (SEPROR/AM); e a Feira de Exposição de Artesanato Tenharim, que promete ser um importante momento de visibilidade e celebração cultural. No entanto, desde já Dayane destaca a importância do apoio do Dabucury e da condução da CESE nesse processo.

“A CESE, por meio do Fundo Dabucury, não chegou aqui querendo executar nada no lugar da gente — ela apoiou a APITEM como protagonista, respeitou o nosso planejamento, nossa lógica territorial e nosso tempo”, destaca.

A coordenadora aponta que o projeto não garante apenas infraestrutura ou recurso financeiro, mas sim “a possibilidade de um povo se reencontrar com ele mesmo”. 

“[É a possibilidade] De uma mulher indígena ocupar o centro da sua própria história, como coordenadora, como mestra, como guardiã de conhecimento, guardiã do Território. Quando uma jovem Tenharim aprende a fazer um cocar com as mãos das mais velhas, quando trinta mulheres se olham e reconhecem umas nas outras a força do seu povo — isso é resultado de luta. E o Dabucury faz parte dessa história, de forma muito concreta e muito bonita”, finaliza.