Oficina do Projeto Dabucury reuniu lideranças, comunicadoras e comunicadores indígenas de organizações apoiadas no Edital 1 do Projeto Dabucury  para construir estratégias de comunicação para defesa de direitos 

Entre os dias 14 e 17 de setembro, lideranças, comunicadoras e comunicadores indígenas de nove estados da Amazônia Legal participaram da Oficina de Comunicação para Incidência voltada ao Fortalecimento de Políticas Públicas, realizada em Brasília (DF). A atividade foi promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), no âmbito do Projeto Dabucury, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.

A formação reuniu representantes de organizações apoiadas no Edital 1 do Projeto Dabucury dos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Durante quatro dias, o grupo discutiu como a comunicação pode fortalecer a participação dos povos indígenas nos espaços de decisão, contribuir para o fortalecimento da PNGATI e ampliar a defesa dos territórios e modos de vida.

Estratégias construídas a partir dos territórios

A programação começou com o compartilhamento das diferentes realidades vivenciadas nos territórios. Invasões, desmatamento, garimpo, exploração de recursos naturais, grandes empreendimentos e dificuldades de acesso às políticas públicas estiveram entre os principais desafios apresentados.

Com base nessas experiências, os/as participantes analisaram as causas e consequências dos problemas, identificaram atores envolvidos nos processos de decisão e discutiram possíveis alianças, espaços de diálogo e estratégias de mobilização.

A formação também abordou a diferença entre atender a uma necessidade imediata por meio da organização comunitária autônoma e realizar ações de incidência para fortalecer políticas públicas e cobrar do poder público a garantia permanente dos direitos. Credibilidade, legitimidade, colaboração, transparência e poder foram apresentados como princípios fundamentais desse processo.

Para Matusalém Mura, do Amazonas, a formação foi também uma oportunidade de conhecer de perto as diferentes realidades dos povos participantes e reconhecer a força construída coletivamente. “Durante esses dias, pude testemunhar de perto as diferentes realidades de cada povo e perceber que, mesmo com os desafios que enfrentamos nos territórios, juntos somos fortes. A resposta somos nós.”

Comunicação própria para ampliar vozes

A comunicação ocupou lugar central nos debates. Os/as participantes refletiram sobre sua importância para ampliar a visibilidade das pautas indígenas, conquistar apoios, fortalecer alianças, preservar a memória dos territórios, denunciar violações e enfrentar informações falsas.

No último dia, os conhecimentos foram colocados em prática na elaboração de campanhas de comunicação e incidência para fortalecer políticas públicas. A partir do tema “Fortalecimento da atuação das mulheres indígenas nos territórios”, os grupos produziram podcast, vídeo, card e texto institucional, considerando os objetivos, públicos, mensagens, linguagens e canais mais adequados a cada proposta.

A segurança também foi tratada como parte indispensável da comunicação. Diante das ameaças enfrentadas por algumas lideranças, a oficina reforçou cuidados como não publicar imagens em tempo real, evitar a divulgação da localização dos/as participantes e respeitar os direitos de imagem e autorais.

Para Kaikuri Waiãpi, do Amapá, a experiência reafirmou o papel da comunicação produzida pelos próprios povos:

“A comunicação originária é a ferramenta basilar para romper o isolamento das aldeias.”

Dan Apurinã, da Terra Indígena Ipixuna, escolheu a palavra “irmandade” para representar a união entre os/as participantes na defesa dos territórios. Cauã Arapium, do Pará, definiu a formação como uma “oportunidade”, enquanto Uilton Gavião, de Rondônia, ressaltou a “troca” de conhecimentos e estratégias de resistência.

A programação foi encerrada com uma atividade de revisão dos principais conceitos trabalhados, incluindo comunicação popular, PNGATI, Poderes da República, partes interessadas e princípios da incidência para fortalecer políticas públicas. O encerramento também promoveu o encontro com as participantes da formação Do Corpo à Terra: Gestão Territorial e Ambiental sob o olhar das mulheres indígenas da Amazônia, realizada simultaneamente em Brasília.

Para Dionísio Oro Nao’, de Rondônia, a comunicação também é uma ferramenta de aproximação e construção de diálogo. Ao compartilhar sua experiência na elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) junto ao povo Marubo, destacou como a comunicação visual e escrita se tornou uma ponte para superar as barreiras linguísticas.

“A comunicação visual e escrita se tornou a ponte necessária para superar o isolamento linguístico do português.”
Dionísio Oro Nao’, da AISA.

Ao final da oficina, comunicadoras, comunicadores e lideranças retornaram aos seus territórios levando novas ferramentas e possibilidades de articulação. A experiência reafirmou que comunicar também é incidir para fortalecer políticas públicas: produzir narrativas próprias, ampliar vozes, construir alianças e ampliar a participação dos povos indígenas nas decisões que afetam suas vidas e seus territórios.

“A oportunidade de ouvir de perto a realidade dos territórios é muito importante nos processos formativos. Além das situações difíceis, é também momento para as pessoas compartilharem seus sonhos e suas conquistas. Partindo dessas duas dimensões, trabalhamos a incidência política como um dos caminhos para a defesa dos direitos dos povos indígenas, apresentando a comunicação como uma importante ferramenta para que esse segmento da população possa ser ouvido em suas necessidades e direitos”, afirma Lucyvanda Moura, uma das assessoras da CESE, facilitadora da oficina.

Além das equipes da CESE e COIAB, participaram das oficinas as seguintes organizações: Associação Indígena Santo André – RO; Organização de Liderança Indígena Mura de Careiro dá Várzea – AM; Instituto de Caciques e Povos Indígenas Da Ilha do Bananal – TO; Associação Thutalinănsu – MT ; Associação Haipuku da Comunidade Indígena Bakalana – MT ; Associação indígena Kateiokuare Parkatêjê – PA; Associação dos KAPI e das Lideranças Tradicionais Sateré-Mawé do Rio Andirá -AM ; Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns – PA; Associação de Mulheres Indígenas em Mutirão ; Associação de Desenvolvimento Comunitário do povo Marubo do alto rio Curuçá – AM ; Coletivo Guerreiras da Floresta da Terra Indígena Caru – MA; Instituto Raoni – MT ; Associação Wajapi Terra, Ambiente e Cultura – AP; Associação indígena zavidjaj djiguhr – RO ; Associação Extrativista do Rio kabitutu Wuyxaxima – PA; Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígena do Acre – AC; Associação indígena Tato’A – PA; Associação dos Povos Indígenas Wai Wai Xaary) – RR; Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira – AM; Instituto Runyn Pupikary Yawanawá – AM; Associação do Povo Indígena Tenharim Morõgitá – AM ; Associação dos Povos Indígenas Trombetas-Mapuera – PA; Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro – AM; Associação do Povo Indigena Krahô-Kanela – TO

Comunicação Estratégica no Dabucury 

O componente de Comunicação Estratégica do Projeto Dabucury visa ampliar a difusão das boas práticas de gestão ambiental e territorial indígena. Além de envolver a capacitação da Rede de Jovens Comunicadores/as da Coiab, produção de materiais de divulgação e assessoria de comunicação digital. Nos processos formativos, a CESE conta com a metodologia do Programa Virando o Jogo na facilitação das formações em comunicação para o fortalecimento de políticas públicas.

‘’A comunicação para a incidência política pública  contribui para fortalecer a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Ao produzir e divulgar informações sobre os territórios, denunciar violações, dar visibilidade às iniciativas de gestão ambiental e territorial e ampliar a participação indígena nos espaços de decisão, comunicadores e comunicadoras fortalecem o protagonismo dos povos indígenas na defesa de seus direitos e na proteção de seus modos de vida. A própria PNGATI reconhece a governança, a participação indígena, a formação e a divulgação de informações sobre a situação ambiental das terras indígenas como dimensões fundamentais para a efetivação da política.’’’, afirma Antônio Marinho, gerente de comunicação da Coiab.

Sobre o Dabucury:

Dabucury é uma festa tradicional dos povos indígenas da região do rio Negro (AM) e simboliza um momento de troca e celebração, envolvendo a partilha de alimentos e reafirmando os laços sociais e culturais entre diferentes comunidades ou grupos. Com este propósito de partilha, o projeto nasce como uma iniciativa da CESE e da Coiab com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.

Acesse o portal do projeto em www.dabucury.org.br e siga as redes sociais da @cesedireitos e @coiabamazônia.