A Terra Indígena (TI) Cana Brava, do povo Tentehar-Guajajara, está localizada no Maranhão e abrange os municípios de Jenipapo dos Vieiras, Barra do Corda e Barão de Grajaú, em uma região de transição entre o Cerrado e a Amazônia. Com 288 aldeias, o território é atravessado por rodovias e por uma linha de transmissão de energia elétrica e enfrenta impactos provocados pela exploração de madeira, pela caça e pesca predatórias, pela pecuária, pela agricultura extensiva e por invasões.


Para fortalecer a gestão e a proteção territorial, a Associação Comunitária Indígena Mituira desenvolve um projeto de etnomapeamento apoiado pela primeira edição do Edital Dabucury, na categoria Jenipapo. A iniciativa, realizada pela CESE e Coiab, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES,recebeu R$ 250 mil e beneficia diretamente 840 pessoas.

O projeto tem como objetivo construir um diagnóstico participativo sobre a TI Cana Brava, registrando as formas tradicionais de ocupação, as áreas sagradas, os recursos naturais, os locais históricos, a infraestrutura existente e os conflitos que ameaçam o território. O trabalho também busca valorizar os conhecimentos dos anciãos, preservar a memória do processo de demarcação e ampliar a participação de jovens e lideranças na gestão territorial.

O etnomapeamento é um dos instrumentos que contribuem para a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Produzido com a participação da própria comunidade, o produto permite organizar informações sobre o território a partir dos conhecimentos, das necessidades e dos modos de vida do povo indígena.

Conhecimento produzido pela comunidade

Entre as ações realizadas estão a construção de uma base de dados documental, bibliográfica, cartográfica e audiovisual; sete reuniões regionais de mobilização; oficina de etnomapeamento; andanças e rodas de conversa pelo território; sistematização das informações; produção dos mapas; e três encontros para apresentação dos resultados às aldeias das sete regiões da TI Cana Brava.

As atividades de campo reuniram 28 participantes, entre lideranças e representantes das diferentes regiões do território. Com o uso de GPS, a equipe percorreu áreas das aldeias para registrar infraestrutura, roças, locais de caça e coleta, espaços históricos e sagrados, além de pontos onde ocorrem invasões e conflitos.

As informações, fotografias e coordenadas levantadas foram organizadas para a produção de mapas de infraestrutura, ambientes e usos, locais históricos e conflitos. O material deverá ser disponibilizado em versões impressa e digital, contribuindo também para ações de educação territorial nas escolas indígenas.

Segundo Magno Machado Lima Guajajara, presidente da Associação Mituira, o apoio do Projeto Dabucury tem possibilitado integrar conhecimentos tradicionais e ferramentas tecnológicas em um processo conduzido pela própria comunidade.

“Os recursos, as formações e o acompanhamento técnico têm permitido envolver jovens, lideranças e anciãos, unindo saberes tradicionais e ferramentas modernas. A execução do projeto tem avançado de forma participativa.”

Para Magno, o etnomapeamento oferece maior clareza sobre o uso e a ocupação da terra e fortalece a atuação da comunidade diante das ameaças externas.

“O mapeamento não é apenas um levantamento técnico, mas um registro da nossa história, memória e cultura. Ele dá visibilidade às áreas sagradas, às práticas tradicionais e reafirma nosso direito à terra.”

Memória e diálogo entre gerações

As andanças e rodas de conversa promoveram o encontro entre jovens, lideranças e tamuis, como são chamados os anciãos. Foram registradas horas de depoimentos em áudio e vídeo sobre a história da comunidade, os conhecimentos tradicionais e o processo de demarcação da TI Cana Brava.

Entre as memórias recuperadas está a história do Massacre de Alto Alegre, narrada sob a perspectiva do próprio povo Tentehar-Guajajara.

“Agora a gente resgatou a memória viva sob a visão do nosso próprio povo Tentehar-Guajajara: a nossa dor, as nossas versões e a nossa resistência. Preservar tudo isso é fundamental para manter a nossa identidade firme com os mais jovens”, afirma Magno.

O material produzido deverá apoiar atividades educativas e contribuir para que estudantes e professores das escolas indígenas conheçam a história do território a partir das narrativas da própria comunidade.

Instrumento para a defesa territorial

Os dados georreferenciados também fortalecem o trabalho da Brigada Voluntária e das lideranças responsáveis pela vigilância e pelo monitoramento das divisas. Ao identificar áreas vulneráveis, invasões e conflitos, os mapas oferecem informações concretas para orientar as ações de proteção territorial.

O material poderá ainda subsidiar denúncias e reivindicações apresentadas a órgãos como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ministério Público.

“Quando for necessário cobrar a fiscalização, não vamos depender apenas das nossas palavras. Poderemos apresentar o mapa, produzido por nós mesmos, comprovando o que está acontecendo no nosso território”, destaca Magno.

Mais do que um produto técnico, o etnomapeamento está se consolidando como um instrumento de gestão, educação, memória e defesa da TI Cana Brava. Produzido coletivamente, ele registra a relação do povo Tentehar-Guajajara com o território e fortalece a capacidade das atuais e futuras gerações de conhecê-lo, protegê-lo e defender seus direitos.